Jogo de Areia
BRINQUEDO PARA CRESCER

Nessa terapia, gente grande usa miniaturas para montar cenários sobre um tabuleiro de areia, externando emoções e angústias

No consultório do terapeuta, além de um canto para conversar, há dois tabuleiros -um coberto de areia seca e o outro, de areia molhada- e centenas de miniaturas que representam um pouco de tudo que existe no mundo (pessoas, objetos, construções, alimentos, plantas, animais, paisagens) e no inconsciente (monstros, divindades).

A idéia do jogo de areia, uma terapia da linha junguiana, é que o paciente, além de falar sobre suas experiências, também monte cenários com os elementos disponíveis para expressar seus conflitos e angústias inconscientes.

O que os cenários contam
A simulação abaixo foi criada por uma mulher de 38 anos e revela a intenção de resgatar o lado feminino.
A presença de figuras como a da baiana é típica de uma fase de amadurecimento.

Cenário: a baiana, com seus saiotes engomados, colares de contas e turbantes coloridos, representa a mulher que conhece ingredientes poderosos e sabe preparar "alimentos" (sentimentos, ações) bons e nutritivos. Ela é uma figura que nutre e acolhe, representa o lado maternal da mulher.


Já a mulata, resultado da miscigenação, sinaliza alegria, originalidade e criatividade.
Também pode indicar uma confusão entre erotismo (abuso do poder sexual) e sensualidade (uma forma mais saudável de lidar com a sexualidade).

É claro que o tratamento é bom para quem tem dificuldade de se comunicar, como as tímidas, as que estão deprimidas e as que sofreram abuso emocional ou sexual. Mas também ajuda quem é superarticulado -aquelas pessoas que, muitas vezes, usam seu discurso sofisticado como defesa, falando sem parar para tentar enganar a si próprias e ao terapeuta. O jogo de areia faz com que esse tipo de paciente abandone um pouco o lado intelectual e seja mais intuitivo.

O contato com a areia pode favorecer lembranças da infância, de brincadeiras na praia, da natureza. Assim, as pessoas despertam aspectos primitivos dentro de si, ficam mais espontâneas e criam cenários que revelam emoções difíceis de colocar para fora ou mesmo de perceber.





Memórias de infância

A análise do terapeuta começa pela escolha do tipo de areia - seca ou molhada -, passa pela seleção das miniaturas e termina com o cenário pronto. Alguns pacientes refazem o cenário inúmeras vezes, indicando perfeccionismo; outros sentem-se desconfortáveis por mexer na areia, o que pode sinalizar dificuldade de fazer contato.

Um estímulo ao femininoPara dar conta das exigências no trabalho, em casa e na vida a dois, muita gente passa a funcionar exclusivamente de forma objetiva, racional e pragmática. A psicologia junguiana classifica essas características como masculinas. O jogo de areia reverte esse modo excessivamente mental de viver, típico das sociedades ocidentais, procurando desenvolver o lado feminino de homens e mulheres. Com a construção de cenários, estimula o afeto, a criatividade, a intuição e a espontaneidade.

A principal chave para interpretar o que a pessoa está sentindo é a seqüência dos cenários elaborados em cada consulta. À primeira vista, as montagens podem parecer desconexas, mas é possível perceber, no decorrer do tratamento, temas que se repetem ou que apresentam alguma relação. Por isso, depois da conclusão de cada cenário, o terapeuta fotografa e guarda o resultado. Posteriormente, discute a mensagem transmitida pelo conjunto de trabalhos.




O método só não é indicado para pessoas muito regredidas emocionalmente, como as que têm tendências psicóticas: nesses casos, a terapia pode bagunçar ainda mais as emoções.

Por Gabriela Garcia
Foto: Egberto Nogueira

Fontes: Aicil Franco, Suzana Hirata e Virginia Sant'Anna, psicólogas especializadas em jogo de areia; e Odette de Godoy Pinheiro, psicóloga, professora da PUC-SP e membro do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.







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